Melancolia.

Talvez eu romantize minha solidão, e todo o seu complexo, talvez eu ame a sensação do blues lento sobre os meus passos desalinhados, e por isso, me recuso a perder essa melancolia, que me excita a dançar com a vulnerabilidade, o desdenho.

Talvez, seja o ego, ou uma arrogância, não posso contestar. Existe diversas suposições, inclusive, o vazio. Não se pode afirmar, mas dentre possibilidades, gosto erradamente do tom que ela me traz. Essa independência perdida, incompreendida, desordenada, esquecida? Talvez. Irrita amar alguém assim, cansa.

Eu não me suporto por tantas vezes. E essa ideia que se repete em momentos de angústia, demonstra como a natureza ama se esconder, como está preparada a atacar quando apenas se deseja cair. Por alguns instantes, ou não.

Porque, às vezes, a melancolia se instala, e ao criar seu conforto, não parti, e incita o outro a desejá-la loucamente, como o licor mais doce, o cigarro mais amargo, o vinho mais intenso. Talvez, ela seja eu, e eu seja ela, tão próximas. Íntimas. De forma que paradoxalmente formamos o amor no sentido mais puro. Talvez.

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A ninfa dos teus olhos.

Caminhei silenciosamente na grama úmida, enquanto as gotículas escorriam pelos meus pés, o céu brilhava, formando um contraste entre as folhas verdes que variavam conforme a espécie. Êxtase. Talvez, metade das análises que eu fazia sobre coisas aleatórias que me rodeavam eram desnecessárias, mas demonstrava exatamente o que eu mais amava, detalhes.

O silêncio representava a resposta de tudo que se passava pela minha mente, a música declarava minha alma de camaleão, as palavras, quase nunca entravam em sintonia, devido a minha falta de experiência em expor, aquilo que transbordava pelo meu coração. O percurso me deixava excitada, a leveza dos passos aguçava a fome, de você. Lembrava aquelas frutas doces, tão doces que nos insinuam a devora-la, como se fosse o remédio para alma, ou o desejo insaciável. Peculiar.

A ninfa perdida e desolada, na sua natureza firme. O sentido estava revirado, e eu retornava mansamente para o aconchego dos teus olhos castanhos. Eu não podia fazer nada, a não ser observar. Chegava a ser cortês a forma como ele me dispensava, quase que na primeira oportunidade quando estávamos sozinhos. Acontece que, esperar pelo inesperado é tolice, tolice pelo qual, eu insistia em abusar. Meus olhos chegavam a revirar, minhas mãos tremiam, as pernas perdiam o rumo, e mesmo ele assassinando minhas ilusões, elas ainda o buscavam como um porto seguro.

A troco de que? Até onde era necessário tamanha vontade, tesão. Uma parte sua estava relutando, e por isso, meu eu estava em conflito, conflito com o que poderia ser óbvio, mas não era. Nunca é, e se fosse, não estaria aqui, não estaria lá, não estaria. Eu queria que ele soubesse como era insuportável lidar com tanta intensidade. Com tanto desprezo. E mesmo assim, permanecer neutra, diante dele.

Apesar da sua insolência, ainda me prendia aos pontos alvos que me matavam perto dele, como sua capacidade de ler meus pensamentos, naturalmente, mantendo sempre um ar de cumplicidade. Irresistível.

No entanto, bati-me a vontade de retribui-lhe igualmente, para quem sabe um dia, obter uma parte daquilo que, me consumia como fogo e a pólvora. Em vão, acrescentava o meu bom senso. Qualquer ato que se desviasse da minha inconsequentemente adoração, retornaria como imã ao mínimo sinal de afeto. Pobre criança ingênua. Resmungava.

Vovó

O que ela pensou?

Quando colocou o quadro com a minha foto e da minha mãe do lado da sua cabeceira.

O que ela pensou?

Quando brigamos pela última vez e nos afastamos completamente da sua vida. 

O que ela pensou? 

Quando se mudou para São Paulo sem nos comunicar. 

O que ela pensou? 

Quando levantou de manhã e sentiu o peso do mundo nas suas costas. 

O que ela pensou? 

Quando se deparou com uma solidão que lhe levaria ao apogeu da sua melancolia e auto destruição. 

O que ela pensou? 

Quando começou a ser agredida verbalmente pelo meu irmão. 

O que ela pensou? 

Quando cozinhou o feijão e viu que eu não estava lá para elogiar. 

O que ela pensou? 

Quando viu sua família distante, e totalmente separada.

O que ela pensou? 

Quando se olhou no espelho e percebeu que toda a beleza dos seus olhos verdes transpareciam dor e cansaço.

O que ela pensou?

Quando a rotina que tanto lhe agrava, estava perdida e desalinhada.

O que ela pensou? 

Quando nada mais parecia fazer sentido, nem mesmo o seu café. 

O que ela pensou? 

Quando percebeu que ninguém compreendia seu vazio maternal.

O que ela pensou? 

Quando se sentiu incapaz ajudar seus filhos. 

O que ela pensou?

O que ela sentiu? 

O que ela desejou? 

Esse abismo profundo, essa distância indesejada, tantas palavras guardadas, um paradoxo sobre a nossa relação tumultuada. 

O amor expresso em lágrimas, em gritos, mas principalmente no silêncio. 

O que ela pensou? 

Quando morreu pela mão daquele cujo sua vida dedicou. 

O que ela pensou? 

Quando sentiu vontade de ligar para filha, mas recuou por orgulho. 

O que ela pensou? 

Quando a vida girou e ela caiu como criança. 

O que ela pensou?

Quando olhou para o céu e viu o frio cobrir suas pernas, sua alma. 

O que ela pensou? 

Quando lembrou das nossas noites escutando canções em rádios aleatórias.

O que ela pensou? 

Quando me deixou 

E se pensou, 

Pensou em mim? 

O doce dos teus lábios

O querer é por tantas vezes uma prova viva da crueldade. Ambígua. De forma que nem percebemos como chegamos a tal ponto. Mas sempre chegamos. Ao auge do desconhecido, de modo que quase estranhamos a forma rude como tratamos nossa vida, nesse período, excêntrico. Acontece que, lembra os velhos labirintos, onde buscamos incansavelmente uma saída e por fim terminamos cansados, em meio a suspiros ou gritos. Frustrante. O desejo é retrógado. Já que, independente do que o outro deseja, vamos alimentar, e ansiar, sozinhos. Não é o fim, mas aquela angústia é voraz, inquietante. Recorremos ao tempo, o santo de todos, que promete cura a todas as insônias, aos textos que nunca serão lidas, aos sonhos idealizados, ao coração, partido. Desejar é um exercício de resiliência, é maturidade, impulso. A espontaneidade pura da vontade, o frio na barriga, o fogo que percorre as entranhas, o consolo, de que ainda estamos vivos. É uma dadiva, solto após olhar seus olhos, o portal para as minhas pequenas e intensas ilusões. Acredite, o desejo quando não saciado, aumenta de forma arrogante. Excita os nervos, os pelos. Revira qualquer ideia decente, qualquer moralidade que ainda resta. O desejo, o obscuro desejo de querer aquilo que é proibido, entorpece o plexo frontal, deixando-lhe como um velho embriagado, perdido. Me questiono por quanto tempo vou escrever sobre você, mais especificamente seus efeitos, que de fato, quebram qualquer sensatez. São os lábios, respirei fundo, é muito errado querer eles junto dos meus? De forma desajeitada, molhada e doce, era tudo que eu queria… Quero. A graça do duvidoso, é que ele anima o lado masoquista, que antes, se encontrava adormecido. Pra variar, ele flerta com os sinais, e lá se criam os demônios. Ou anjos. O equilíbrio é fascinante, a dose certa, e até quando passa do ponto, ainda deixa seus rastros de que era preciso, mergulhar no precipício, fechar os olhos e sentir. Adeus paz de espirito, pensei. Lidar com a sua personalidade mordaz enfraquecia qualquer expectativa, mas eu adorava, e se falasse que não, estaria mentindo. Seu jeito, amava o modo glacial, da mesma forma que amava os dias que o seu sorriso soltava quase sem perceber. Distantes, e próximos. Nossa relação variava, conforme sua teimosia, sua forma aleatória de aparecer e sumir, de abraçar como se me desejasse, e ao mesmo tempo, mostrar entre tantas atitudes o oposto. Alias, o oposto pesava na balança, e talvez por conta disso, metade de mim já havia aceitado o fato que o meu desejo, morreria aos poucos, ou viveria comigo, como uma espécie de foto de parentes que levamos para guerra. Um carinho ao meu tempo, a minha fase, que insistia em ser guiada pelo “`seguidor“. Seria mais fácil se eu o perdesse, mas lá no fundo, me perguntava como seria se eu não o visse mais, como seria não tê-lo por perto. O medo antecipado se estabelecia, e nessas horas me batia a vontade de ser franca, no sentido que, me contentaria com o carnal, porque não importava como, onde ou quando, eu só desejava de forma louca, ele. O mais estranho, era que, ele sabia tudo que eu sentia, e mesmo assim ignorava de forma bruta, indiferente. Não sei se era a sua incapacidade de dizer o que sentia, ou a minha de compreender que para bom entendedor, meia palavra basta, ou seja, eu deveria recolher o mínimo da dignidade que ainda restava. Ainda cabia. Mas não, meu desejo era completamente ignorante, e ao invés de desistir, ele preferia sentar, e esperar o inacessível. O que existia nele, de tão único, para eu esquecer o caminho de volta, a saída, o retorno para o meu eu. Essa agonia era tentadora, querê-lo era a arte mais peculiar e natural da minha vida. Eu o levaria, por ser ele, por ser leve e intimidadora, o levaria pelo resto da minha vida como um samba que toca no final das tardes, enquanto acontece o belo pôr do sol, enquanto a brisa ainda está viva, e o suspiro desliza profundamente, esclarecendo, como eu me sentia livre e segura, quando se tratava dele.

Deixa eu te amar

deixa eu te amar.

deixa eu sentir seu suor

suas mãos pesadas

sobre minhas pernas desajeitadas.

deixa a minha boca se unir

a tua.

deixa minha boca

beijar

cada detalhe que

compõe você.

deixa pra lá

qualquer medo ou suposição

deixa o racional

deixa eu sentar em você

excitar nossas almas

gozar nossas mentes

me enxerga

como eu te enxergo

e deixa

deixa eu te amar.

deixa o acaso

mostrar que vai valer a pena

ceder a minha vontade

me deixar nua

vulnerável ao seu querer

deixa

eu morder seus lábios

beijar suas mãos

seu pau.

me leva

e deixa eu te amar.

O devaneio favorito

Nada é por acaso, foi o que repeti após suas palavras frias e sinceras. Eu tive medo de você, e quando tudo explodiu, parece que só restava pequenos rastros, de meses excitantes e tortuosos. Mas acalmou, mais rápido do que eu imaginava. Foi o balde de água fria, pensei. Entender o seu lado, foi fácil, aceitar que o querer aumenta as ilusões numa dimensão constrangedora, e ao mesmo tempo singular, foi estranho. Bateu curiosidade, do que estava passando pela sua mente. Bateu vontade de perguntar, bateu vontade de saber se você havia pelo menos sentido, metade do que eu sentia, apenas lendo aquelas palavras aleatórias. Ou se você observou, e fingiu demência, como naquelas situações que não podemos ser grossos, e que de alguma forma somos obrigados a ser no mínimo, gentis. Não devo ceder, não devo cair, as cartas estão na mesa e eu não queria aumentar aquilo que já havia despejado. Secar a água, colocar no balde, soava exaustivo. Mas uma parte minha, queria. Como posso negar? Eu ainda estava perdida nele, e se antes eu me sentia desajeitada, agora não existia mais o que oprimir, o que me obrigava a exercitar o autocontrole. Admito, o que me excitava antes, agora estava terrivelmente persuasivo. Aquelas mãos me chamavam e ele nem percebia, aqueles lábios, me faziam de tonta e o olhar, sempre tão leal, sincero. Acontece que, eu esperava um dia, explicar tudo, explicar que talvez nem tudo fosse como parecia ser, que talvez essa vontade louca não passasse de uma fase, e que seria justo ele corresponder por algumas horas, ou segundos, mas assim, eu estaria me humilhando, recorrendo a migalhas. Que belo paradoxo. Por instantes eu possuía a certeza que o seu carnal, me bastaria. Outra utopia. Seria bom, eu amaria seu corpo, amaria toca-lo, amaria fazê-lo sentir prazer, me sentir, mas uma coisa leva a outra, e como cocaína, eu ficaria viciada, e o casual entraria em conflito com o meu lado romântico. Era fácil deduzir que eu me entregaria de forma inconsequente, mas o racional se fazia presente, e como de costume, me lembrava que, as vontades são traiçoeiras, como crianças inocentes que não pensam no amanhã. Talvez eu só devesse aprender a lidar com o fim, com a verdade que era quase tão angustiante do que a dúvida, mas a diferença, era que agora, eu sabia que de alguma forma, o tempo levaria como mais um amor, que canta sozinha e morre no velho diário, de lembranças inalcançáveis.

Intolerância

Apreciar a mudança, é uma das sensações mais belas e naturais, mas o mundo e seu tempo incontável que persegue tantas mentes, só alivia aqueles que aprenderam a admirar seu trabalho, sua forma leve e profunda. Arrogante e chamativa. Transformações, estupidamente necessárias, mas que por alguns instantes soam obscuras. Reações repetidas, apesar das evoluções, o novo sempre causa essa evidência de tabu, o novo irrita o velho, e instiga o retrocesso.

O desequilíbrio humano decorre por inúmeros motivos, entre eles a dificuldade de compreender o alheio. Empatia, por assim dizer. Gritamos liberdade, mas até onde podemos ousar, ou expor? A sociedade se coloca em alerta para críticar aquilo que convém, talvez porque seja mais fácil coagir, do que verdadeiramente escutar a visão divergente. Os homens das cavernas lutavam pelo seu espaço e defendiam sua tribo, seu reino. Hoje, observamos homens das cavernas que se isolam no seu mundo e negam-se a aceitar que na comunicação, nem sempre, ou quase sempre, estaremos sujeitos a lidar com aquilo que não julgamos certo.

Gandhi na sua belíssima trajetória explicou diversas vezes como a ação não trabalhava com a palavra, e se fosse para fazer as duas ao mesmo tempo, então certamente o resultado seria negativo. O que significa, que na maioria das vezes o indivíduo que julga cegamente o outro enquanto busca uma mudança, aparentemente, se encontra estagnado. A intolerância se faz presente em muitos casos, e quando se trata de convivência social/virtual, apresenta-se um comportamento que se distancia do respeito para com próximo.

O processo de mudança é indomável segundo Devir, conceito filosófico criado por Heráclito, que explica que nada nesse mundo é permanente. Logo entende-se que é a partir das opiniões que encontramos um caminho para o conhecimento. Sabedoria. Não há o que temer, ou subjugar, o preconceito é uma das formas mais primitivas do ser humano mostrar suas fraquezas. Talvez porque fomos programados para conter aquilo que inconscientemente nos atrai a despertar o lado que não conhecemos. Oculto.

Foucault fala de forma pessimista, como somos induzidos a seguir um padrão social. A relação interessante entre o poder e o conhecimento, é que conforme aprendemos, nos colocamos no papel de árbitro em diversas situações, mas o que se percebe é a desaprovação quando encontramos alguém que se dispõe a retrucar tal afirmativa. Então é onde entra a observação, do que vale a erudição se, não entendemos que, o conhecimento é para si, e pode ser repassado de forma aberta para quem está disposto a escutar, entretanto, não deve ser aplicado como subordinação. Nossas mentes são universos completos e não precisam de ordem, mas sim, liberdade.